PSV. Da crença e ambição ao bicampeonato

PSVA forma épica como o PSV atingiu o 23º título da Eredivisie da sua história perdurará por muito tempo. Num autêntico mano-a-mano com o Ajax, foram os Boeren quem, em cima da linha de meta, levaram a melhor. Se, em 2007, Cocu, enquanto jogador, decidiu o título para o PSV, em 2015/2016, o agora técnico voltou a ser herói: liderou uma equipa que arrancou titubeante, viu-se demasiado longe da glória mas que, pontuada por um estilo organizado e pragmático, soube agarrar o bicampeonato quando já poucos acreditavam.

2 pontos são nada. Ou podem ser tudo. Até 6 golos poderiam ser tudo, caso o Ajax tivesse vencido em Doetinchem, na última jornada da Eredivisie. Tal não aconteceu e o título ‘caiu’ para o PSV. Todo e qualquer campeão terá os seus méritos próprios e será fruto de um conjunto de factores decisivos. O PSV não foge a esta regra – para além da soma de todos os pontos (e o PSV, à excepção da época transacta, não acumulava tantos desde 2005/06), o que terá permitido, afinal, aos pupilos de Cocu chegar ao bicampeonato?

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psvonline.nl

Suceder aos imprescindíveis

O arranque da época foi marcado por duas contrariedades. Já esperadas – mas sempre contrariedades –, as saídas de Depay e Wijnaldum (dois elementos fundamentais na campanha que desembocou em título em 2014/!5) pareciam colocar em causa os alicerces do conjunto de Eindhoven. Todavia, o PSV encarou de forma assertiva o mercado e foi capaz de colmatar duas ausências de peso de forma mais suave do que o expectável. No miolo, Propper (ex-Vitesse) encaixou que nem uma luva, revelando-se um elemento fulcral rumo ao bicampeonato – 10 golos, 7 assistências e um rendimento elevado e constante ao longo de toda a Eredivisie, de um jogador que, não sendo exímio do ponto de vista técnico, é extremamente elástico, tacticamente disciplinado, comprometido e com grande capacidade de chegada na área. Por outro lado, a ida de Depay para Manchester trouxe outra preponderância a Locadia (ponta-de-lança que é visto cada vez mais como um extremo com tendência para movimentos interiores e aparecimento na zona de finalização), para além de ter potenciado uma aposta de futuro: Gáston Pereiro, vindo, aos 20 anos, do Nacional de Montevideu (Uruguai), revelou-se um autêntico joker, o 12º jogador, terminado a Liga com a fantástica média de 1 golo a cada 121 minutos. Com rendimento no imediato, é – agora mais – uma aposta com tremenda expectativa de retorno no futuro.

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Locadia e Pereiro | voetbalcentraal.nl

PSV style

“Espectacularidade” não é uma palavra que possa ser empregue quando se fala do PSV. O estilo de jogo do bicampeão holandês é essencialmente organizado, pragmático, eficaz e cínico qb. Evoluindo a partir de um 433, Cocu montou uma equipa que não tem problemas em compartilhar a iniciativa de jogo (é apenas a 4ª equipa com maior índice de posse de bola), com imensa preponderância nos corredores laterais, sentindo-se ainda confortável com a possibilidade de explorar transições rápidas (o que empreendeu com sucesso, por exemplo, na vitória em Amesterdão, na 1ª volta, por 2-1). Sendo um conjunto com elementos dotados tecnicamente, o PSV não procura ter a bola por ter, congelando-a ou retendo-a, buscando imprimir velocidade e risco no jogo.

Nesse sentido, um dos movimentos mais característicos e que acaba por ser consequência de uma opção técnico-táctica de Cocu é o passe longo de Guardado – adaptado a #6 pelo treinador –, procurando o farol Luuk de Jong (é tremendo no duelo aéreo/físico e com uma notável veia goleadora) ou solicitando entradas-surpresa do extremo e/ou lateral direito. E talvez essa forma de jogar explique o crescente envolvimento de Arías (defesa direito ex-Sporting) no movimento ofensivo e a elevada percentagem de sucesso no drible por parte de Narsingh (nos últimos 5 jogos, por exemplo, venceu 75% deste tipo de duelos), um extremo cada vez mais vertical e decisivo (e que poderá abandonar Philips Stadion rumo à Premier League).

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Andrés Guardado | nu.nl

Upgrade invernal

O verdadeiro e definitivo salto qualitativo do PSV deu-se em finais de Janeiro através de dois reforços. Ou, na realidade, de um mais um. Por um lado, a recuperação de Jetro Willems, depois de uma grave lesão no joelho, permitiu à equipa de Eindhoven ganhar outra qualidade na asa esquerda, com o defesa/lateral a mostrar que os seus predicados ao nível da qualidade técnica e da capacidade de cruzamentos se mantêm intactos – reassumiu a titularidade na jornada 23 e ainda foi a tempo de somar 2 golos e 4 assistências. E, entretanto, já é apontado a Manchester City. Por outro lado, o recrutamento de Marco Van Ginkel (rendimento muito intermitente na 1ª metade ao serviço do Stoke City) significou o acréscimo perfeito a um meio-campo assente em Guardado e Propper, e que necessitava de um elemento que fizesse a ponte entre estas duas unidades. O rendimento do médio emprestado pelo Chelsea superou tudo aquilo que seria expectável: de processos simples e qualidade técnica perfumada, Van Ginkel assumiu-se como um #8 sempre presente nos desdobramentos da sua equipa, terminando a época com a incrível marca de 8 golos e uma assistência em 13 jogos. Um autêntico double upgrade no conjunto de Eindhoven.

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Willems e Van Ginkel | psvfans.nl

O descalabro do Feyenoord

Por mais que as condições endógenas tenham permitido ao PSV almejar a glória, o inicio de época periclitante – 7 pontos perdidos nas 6 primeiras jornadas – implicou que os homens de Eindhoven corressem atrás do prejuízo e se colocassem na dependência de terceiros. A corrida nunca eliminou o PSV mas, durante boa parte da época, Ajax e Feyenoord estiveram em posições bastante mais confortáveis. A jornada 16 marcou o descalabro dos homens de Roterdão, que iniciaram, então, com o empate de diante do Groningen, uma sequência de 9 jogos sem vencer, quando nada o fazia prever e num momento em que ‘cheiravam’ a liderança da prova. Os Boeren aproveitaram para ultrapassar o Feyenoord (que nunca mais se encontrou) e transformaram a disputa a três numa contenda a dois. Um despique que haveria de ser decidido com recurso a photo finish favorável aos de Eindhoven.

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Hendrix (ao centro) na luta com Kuyt e Immers | telegraaf.nl

A Champions, para o bem e para o mal

A interessante campanha do PSV na Champions – chegou aos Oitavos-de-final pela 1ª vez desde 2006/07 – desembocou numa derrota às mãos do Atlético de Madrid, na marcação das grandes penalidades depois de um duplo 0-0 (onde chegou mesmo a fazer perigar a manutenção na prova do agora finalista, sobretudo pela capacidade de aproveitamento dos espaços em rápida saída ofensiva). Porém, a Champions, ‘atrapalhando’, também veio clarear caminho. Vejamos: em toda a 2ª volta, o PSV perdeu apenas 5 pontos. Quando? No fim-de-semana imediatamente antes e após a 2ª mão em Espanha, sendo que 3 destes pontos correspondem à derrota, em casa, perante o … Ajax. A reacção, porém, não podia ter sido mais forte: 6 vitórias consecutivas (em Alkmaar e Zwolle, bem como diante do traiçoeiro Vitesse), 20 golos marcados e o título em cima da meta. O PSV queria muito(!) e fez por lográ-lo.

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Guardado e Narsingh diante do ‘Atleti’ | ideal.es

Shadow Team

Para além das épocas muito positivas de vários pesos pesados – o keeper Zoet, os centrais Bruma e Moreno, Guardado, Propper ou Luuk de Jong –, as soluções secundárias de que Cocu dispôs também foram sempre capazes de suprir algumas insuficiências momentâneas. Brenet ocupou com reconhecida qualidade a faixa direita ou esquerda da defesa (foi, aliás, opção constante até ao regresso de Jetro Willems); Mirin revelou-se uma sólida e fiável alternativa a Bruma e Moreno; Hendrix fez imensos jogos a titular como #6, nos momentos de indisponibilidade de Guardado ou quando o mexicano ocupou terrenos mais adiantados (sobretudo antes da chegada de Van Ginkel); e, finalmente, Gáston Pereiro, raramente titular mas invariavelmente chamado a jogo, acabou por apontar inúmeros golos importantes, como os 2 diante do PEC Zwolle (na vitória caseira por 3-2) ou em plena Arena de Amesterdão, no seu 1º jogo enquanto titular (quando o PSV aí venceu por 2-1).

No fundo, mais do que um onze competente, o PSV foi capaz de se rechear de unidades cumpridoras e que souberam aproveitar as oportunidades quando elas surgiram – a única excepção aqui talvez seja o nome de Adam Maher, um jovem que muito prometia no AZ Alkmaar mas que, aos 22 anos, e numa época em que começou como titular absoluto, foi perdendo espaço e continua sem confirmar todo o potencial que se lhe observava.

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Joshua Brenet | fcupdate.nl

Notas estatísticas:

– Melhor ataque: 88 golos marcados;
– 2ª melhor defesa: 32 golos sofridos;
– 42 pontos conquistados fora de casa: o melhor score desde 2000/01;
– 46 pontos conquistados após a pausa invernal, igualando o melhor registo da história do clube;
– 26 golos para Luuk de Jong: 2º melhor marcador da Eredivisie e 1º jogador do PSV a chegar a este registo desde Mateja Kezman em 2002/03.

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Performance do PSV ao longo da Eredivisie | statto.com

Melhor onze:

equipa

Fonte da imagem principal: psv.netwerk.to

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